De Andante a Prestíssimo

De Andante a Prestíssimo

A autora, poeta, blogueira e leitora beta Ana Cláudia Marques leu Terras dos Encantados – A Jornada do Círculo. O resultado é esta resenha essencial e estimulante. 

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Imagine-se em meio a uma trama que englobe seres fantásticos e humanos, o que há de mais novo em tecnologia e espiritualidade. Terra dos Encantados nos convida a entrar exatamente nesta realidade fantástica, pelas mãos da autora Ana Santana.

Quando entrei em contato com a história fui obrigada a lê-la do início ao fim até de madrugada. Culpei a autora, obviamente, pela noite insone e bem aproveitada, vivendo uma aventura fantástica entre fadas, anjos, humanos, bruxas, elfos, druidas e muito mais.

Se este livro fosse uma música, diria que ele começa andante, e ao longo dos primeiros capítulos, a fim de que entremos em contato com os personagens, o ritmo torna-se allegro ma non tropo.Quando os personagens se prontificam para a aventura que se inicia, porém, é a hora em que se esquece de tomar água ou do sono: o ritmo da aventura pode ser descrito como allegro vivace, e pouco a pouco se intensifica, culminando num prestíssimo.

Leitora fiel e apaixonada de literatura fantástica, desde Alice até Harry Potter, Ana Santana tem a maestria com as palavras como sua aliada, nos fazendo duvidar de nossa própria realidade.

E fica aqui minha pergunta: o que é a realidade? Shakespeare já nos deixou a pista: “há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode sonhar a nossa vá filosofia.” Embarque na realidade de Terra dos Encantados.

 

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Birman Flint e o Mistério da Pérola Negra

Birman Flint e o Mistério da Pérola Negra

A partir de hoje, o Valise de Palavras passa a dar dicas de leitura. Vou começar por um super lançamento da Editora Chiado. Com certeza agradará crianças, jovens e adultos, uma vez que, apesar de ser uma fábula infanto-juvenil, inspira-se em um episódio histórico da Rússia dos czares. 

Birman Flint

 

Birman Flint e o Mistério da Pérola Negra marca a estreia do psicanalista Sérgio Rossoni na literatura juvenil fantástica com prefácio do premiado escritor Ricardo Ramos Filho

Publicada pela Chiado Editora, obra será lançada também em Portugal, Angola e Cabo Verde

Rossoni cria um universo fantástico animalesco protagonizado pelo gato Birman Flint, astuto repórter do Diário do Felino que investiga, ao lado de seu parceiro, Bazzou, um carismático e inteligente rato, o misterioso assassinato de outro roedor: Karpof Mundongovich.

A intensa investigação acerca do crime conta com a contribuição de animais de várias espécies, como o galo detetive Galileu Ponterroaux, o esquilo comissário Esquilovski, embaixador da cidade de Rudânia, o gato Splendorf Gatalho e o pato acadêmico Patovinsky Fabergerisky. Juntos, eles ajudam Flint a elucidar este caso.

Os rastros encontrados por Birman Flint e seu companheiro, Bazzou, são imprecisos e instigam a dupla a intensificar a busca por mais pistas. Os repórteres se veem às voltas com um mistério que envolve a família Ronromanovich, fundadora da dinastia da Rudânia, objetos misteriosos, que estão na mira do suspeito roedor Maquiavel Ratatusk e Gosferatus (membro de uma inescrupulosa seita) e um antigo duelo entre dois clãs narrado no diário de um antepassado de ascendência Ronromanovich. Como relacionar todos os elementos ao enigmático assassinato de Karpof Mundongovich?

Com enredo misterioso e ágil, o livro apresenta aos leitores um mundo animal muito semelhante ao dos homens. Permeado por conflitos, traições, conspirações e muita aventura, o cenário complexo e enigmático de Birman Flint e o Mistério da Pérola Negra prende e envolve o leitor na ânsia pela resolução do mistério.

Referências

Ao desenvolver a trama, Sérgio Rossoni usou como base a cultura russa para a criação da estrutura da história, personagens e fatos históricos. Tal escolha deve-se ao fato de que Rossoni sempre se sentiu atraído pelo assassinato da família Romanov bem como pela arquitetura russa e por Rasputin, um dos personagens mais enigmáticos e espantosos do período que antecedeu a Revolução Russa de 1917. Em Birman Flint, a livre inspiração em Rasputin se faz presente no personagem Gosferatus, inspirado na casa Romanov, segunda e última dinastia imperial que governou a Moscóvia e o Império Russo por oito gerações, entre 1613 e 1762.

 

Sobre o autor

Sérgio Rossoni é psicanalista, escritor, ilustrador e músico. É formado pela Escola Paulista de Psicanálise e especializado na área de Terapia Breve com fundo Psicanalítico. Seu histórico musical é expressivo, fez, entre outros cursos: Oficina de improvisação e arranjo com Roberto Sion e Teoria musical, arranjo e composição, com Rodolfo Stroeter, além de ter lecionado contrabaixo e guitarra no Centro de estudos para Contrabaixo. Fundou o Estúdio de gravação Zabumba (1995) e posteriormente o selo Zabumba Records. Participou ao lado de importantes músicos e produtores da fundação da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), pertencendo ao conselho diretor. Em 2010 iniciou o blog “Impressões de um psicanalista”, com textos sobre o cotidiano a partir do olhar analítico, tornando a escrita parte de sua rotina. Contudo, foi no trabalho do CD “Contando histórias” (2004), que pôde resgatar a paixão que havia experimentado ainda na infância ao criar roteiros adaptando personagens do cinema para suas próprias HQs, desenvolvendo pequenos contos que serviriam como ideia central para seu primeiro livro, cujo título provisório era “As aventuras do Gato Mush”. Participou de oficinas realizadas na Escola do Escritor, onde conheceu Ricardo Ramos Filho.  Em 2014 formou-se no curso de desenho na Quanta Academia de Arte, mas segue nos estudos.

Sobre a editora

A Chiado Editora é especializada na publicação de autores portugueses e brasileiros contemporâneos, sendo neste momento a maior editora em Portugal neste segmento, e uma das editoras em maior crescimento no Brasil. Em virtude dos métodos inovadores de produção e distribuição que desenvolvemos, todos os livros publicados estão, a todo o momento, disponíveis para todos os Leitores, nas maiores redes livreiras de Portugal e do Brasil. Dado o sucesso conquistado em Portugal e no Brasil, a Chiado Editora expandiu o seu trabalho para vários países, em várias línguas diferentes. A Chiado Editora publica igualmente na Alemanha, Bélgica, Espanha e América Latina, Estados Unidos da América, França, Luxemburgo, Irlanda e Reino Unido.

Birman Flint e o Mistério da Pérola Negra – Livro 1

Autor: Sérgio Rossoni

Chiado Editora

Páginas: 383

Preço: R$ 38,00

 

Informações para a imprensa

Parceria 6 Assessoria de Comunicação

(11) 3081-1260 | 3062-9951

Jéssica Mendes | jessica@parceria6.com.br

Antoune Nakkhle | parceria6@parceria6.com.br

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Sinopse de Terras dos Encantados – A Jornada do Círculo

Sinopse de Terras dos Encantados – A Jornada do Círculo

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Nina, uma fada da Terra dos Encantados, cresceu sob a pressão de uma estranha profecia. Alane, um sacerdote druida, lhe ajudou a desenvolver seus dons. Lorena é filha adotiva dos MacGregor, cientistas renomados, obcecados pela produção da antimatéria.

Às vésperas de um aniversário de 17 anos que modificará radicalmente as vidas das duas jovens, conflitos sanguinários e um surto energético ameaçam destruir seus mundos. Nesse redemoinho, os pais de Lorena desaparecem e para salvá-los ela precisa atravessar as fronteiras entre as duas dimensões.

É quando os caminhos de Nina e Lorena se cruzam. Ante as imposições da Profecia Ancestral, cabe a elas escolher se partirão em busca do Livro do Futuro. Este manuscrito contém as chaves para salvar os dois mundos. E também fragmentos de um mapa que indicará a localização secreta do Antídoto, arma que poderá destruir as trevas.

Nessa caminhada elas contarão com a parceria do Círculo dos Encantados, composta por humanos e seres mágicos. Ao longo dessa travessia, Nina e Lorena terão a oportunidade de conhecer a si mesmas, descobrir sua própria natureza e encontrar o amor de suas vidas.

Aqui, os vilões não se ocultam apenas nas sombras do caminho, mas também no interior de cada personagem. Para vencer essa jornada e salvar seus mundos, Nina e Lorena terão que aprender a controlar suas próprias emoções. Não será tão simples, já que o coração de Nina se divide entre o Anjo Mitchell e Morgan, antes apaixonado por ela, agora interessado em Lorena. Vários triângulos amorosos abalarão o Círculo e comprometerão a jornada.

Personagens fascinantes compõem essa trama de natureza fantástica e espiritualista, pontilhada por questões políticas e sócio-econômicas. Nina e Lorena vão se deparar com aliados inesperados em cada passo dessa travessia. Até entre os vilões elas encontrarão alianças imprevistas. Sem falar nas criaturas que emergem de antigas lendas, como os Filhos da Floresta, revelando as tênues fronteiras entre mito e realidade.

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Capítulo 5 – À Procura de Dora

Capítulo 5 – À Procura de Dora

Clark não se lembrava de quase nada após o último encontro com Lenora. Deixara a gruta entorpecido. Uma comichão no coração, algo como uma fúria, se intensificava e devorava sua razão. Ao se aproximar de sua casa, a ira queimava em suas entranhas. Parecia perder o controle sobre os próprios músculos.

De repente, sentiu um toque cálido em suas costas. Foi como um choque percorrendo seu corpo. Estremecendo, Clark voltou-se bruscamente.

– Primo, que está acontecendo? – Uma expressão de terror pairava no olhar de Dora. – Nunca te vi assim.

– Assim como? – vociferou Clark. Era mesmo sua voz?

Ela recuou, ainda fitando-o. O que veria nos olhos dele? Então, Dora começou a buscar algo em sua bolsa. Logo emergiu da valise um objeto espelhado.

– Veja você mesmo – ela murmurou.

Clark arrebatou o artefato das mãos delicadas de sua prima. Quando levou o espelho até o rosto, mal conseguiu reprimir um grito de horror. Seus olhos pareciam transbordar de sangue.

Aturdido, fitou Dora. Então, percebeu que a mão dela sangrava. Neste instante, a fúria de Clark começou a derreter. Ele só desejava fugir das proximidades de sua casa.

Quando ensaiou o primeiro passo, uma vertigem o dominou, cegando-o. A partir daí, lembrava-se apenas do grito de Dora.

– Socorro! Socorro!

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A Jornada de Layla

A Jornada de Layla

Capítulo 4

O Inimigo Sem Faces

Layla não via mais que sombras. O abismo negro parecia infinito. Ela caía, caía…

Então, uma voz profunda e rouca cortou a escuridão.

– Você destrói aquilo que toca.

A princípio, não compreendeu as palavras. A voz, porém, prosseguiu, não lhe deixando dúvidas.

– Destruiu seus pais quando virou uma aberração.

Ela estremecia, como se não controlasse o próprio corpo. Súbito, um sussurro distante anhinhou-se em seus ouvidos.

– Reaja, seus poderes são abençoados pelo Senhor do Universo.

Layla tentou se apegar àquelas palavras, mas a voz sinistra voltou a sugá-la.

– Enquanto o sangue deles esvaía, só lhe restava a certeza de sua culpa.

Impotente, ela mergulhou mais fundo naquele abismo sem faces.

– Você renegou o Deus Xântico, Senhor dos que sobreviveram ao Caos. Sua família pagou um alto preço por sua rebeldia.

A dor de Layla era quase insuportável. Ela tentava se apoiar em algo, mas o buraco negro a devorava.

Quando sua consciência fugia, o vento pareceu lhe soprar palavras distantes.

– Despreocupe-se, Layla. No tempo certo encontrará harmonia no turbilhão em que mergulhou.

Ao focar nessa voz, uma luz emergiu em sua mente, dando-lhe forças para reagir. Entretanto, assim que impulsionou seu corpo para cima, sentiu como se tentáculos viscosos envolvessem suas pernas, feito garras selvagens  dilacerando cada nervo.

Um grito feroz escapou da garganta de Layla; ela não reconhecia a própria voz.

Suas forças voltaram a fugir; estava quase cedendo ante o inimigo, quando braços vigorosos encaixaram-se sob seus ombros, puxando-a para o alto.

A subida parecia infindável; e aparentemente o adversário não desistiria de sua presa. Ele se enroscava no corpo dela, lembrando um daqueles parasitas repulsivos das aulas de Biologia.

– Ele está em sua mente. – Agora ela reconhecia a voz de Morgan. – Liberte-se dele.

“Como?”

Ela não compreendia.  Parecendo ler seus pensamentos, o guardião prosseguiu.

– Suas mentes estão conectadas. Tente resgatar uma lembrança que lhe inspire alegria.

A dor de Layla transcendia qualquer limite. Lágrimas teimavam em banhar suas faces. Como pensar em algo bom nesse momento?

Mas, de súbito, soube. Não desistiria de sua jornada. Se não por ela, por Clark.

Então, como se o nome dele fosse mágico, ela se viu no Campo das Luzes, pequeno bosque artificial nos limites da cidade. Ali, em noites de primavera, as pessoas se reuniam para louvar o Xântico.

A família de Layla não adorava aquela divindade sombria. Portanto, aproveitava para contemplar as estrelas, enquanto apreciava um inusitado fenômeno meteorológico. Nessa estação, o céu derramava luzes coloridas sobre aquela região. O Conselho pregava que, no auge do Caos, o Deus Xântico elegera bem ali o primeiro líder da linhagem protegida. As luzes seriam uma lembrança desse pacto.

Mas os pais de Layla suspeitavam que o Campo era um dos raros pontos de contato entre humanos e outras dimensões. Ela e Clark ouviam essas histórias como se fossem contos de fadas.

– Layla, e se for verdade? – perguntou Clark, então com 10 anos. – Acha que há duendes e dragões nessas dimensões? – Os olhos dele brilhavam. Ele tinha verdadeira obsessão por essas criaturas.

– Prefiro imaginar que há fadas e bruxas. – Aos 7 anos, ela já sonhava com poderes mágicos. – Pensando bem, pode haver anjos também…. – Hesitou, depois arriscou. – Acha que há fantasmas de luz, como diz mamãe?

– Não são fantasmas, boba. – O riso cristalino de Clark era capaz de dissolver os medos de Layla. – São es-pí-ri-tos.

– Foi o que disse – teimava – Es-pri-tus. – Ele ria ainda mais; ela fingia ficar brava.

Naquela noite, as luzes pareciam mais intensas. Ela acreditou ver, por instantes, a face de um anjo. Por que lhe parecia, agora, tão familiar?

De repente, o olhar daquele anjo a conduziu de volta ao abismo. Mas ela não estava caindo, nem sentia as garras sinistras em torno de suas pernas. Uma brisa fresca amenizava sua dor.

Uma luz, aproximando-se em alta velocidade, feriu seus olhos. Então, ela mergulhou num estranho torpor.

Ao despertar, sobre uma rocha íngreme, porém reconfortante, viu-se diante de olhos que lembravam os do Anjo de sua infância. Estaria devaneando?

– Você é guerreira – disse Morgan. – Poucos sobrevivem ao encontro de um psíquico. – Ela franziu a testa.

–  Refere-se àquele monstro sem faces? – Seu coração acelerou. – Não foi um pesadelo?

– É quase como se fosse. – Ele tinha de responder por enigmas? – Psíquicos são como você, porém a serviço do Conselho. Mercenários, entende?

Espere. Ela dissera algo sobre seus poderes? Tentou lembrar-se; a cabeça doía. Nesse instante, ele interrompeu seus pensamentos.

– Já disse. Os guardiões detêm todo saber. Infelizmente, o Conselho também. – Novamente ela sentiu que ele podia ler sua mente. Ai! Deveria controlar certos pensamentos! Mas como? Seu rosto parecia arder em brasas.

– Esses psíquicos… – ela tentou focar nos inimigos – sou tão perigosa quanto eles? – Arrepiou-se ao rememorar as palavras de seu algoz. Teria mesmo provocado a morte dos pais? Um estranho mal-estar a dominou.

– Cuidado, não entre na sintonia de seus adversários. Eles usam os poderes psíquicos para entrar na sua mente e lá encontrar as armas necessárias para destruí-la. – Ela piscou, confusa. – No seu caso, medo e culpa.

Layla suspirou.

– Nunca percebi que me sentia tão culpada.

– O Conselho treina psíquicos para navegar no inconsciente, sede dessas emoções destrutivas. Eles podem ser bem letais. Você pode jamais voltar desse mergulho no lado obscuro da mente.

Um arrepio percorreu a medula de Layla.

– Também posso virar um monstro como esse? O que me salvou? Ou quem?

Uma expressão misteriosa pairava no rosto dele. Compaixão? Preocupação?

– Só se escolher o lado escuro da jornada. Guie-se pela luz intensa presente em sua alma e não terá o que temer. Acredite mais em si mesma. Lembre-se, cada recurso, cada revelação, pode ser instrumento do mal ou do bem. Depende de você.

Se assim era, Layla não provocara a morte dos pais. Por eles, por Clark, ela se deixaria conduzir pelas luzes.  Algo insistia em emergir na sua consciência; algo que vira ou sentira no Campo. Que seria?

Então, um toque ardente em sua pele a despertou. A misteriosa intuição voltou a se esconder, dando lugar a um turbilhão de emoções. Um simples toque de Morgan e pronto! Lá estava ela, novamente imersa num imprevisível redemoinho.

Súbito, ele se afastou, quase como se um raio o atingisse.

– Melhor partir, antes que enviem novos emissários a sua procura.

O estômago de Layla se retorceu. Tanto ainda a enfrentar. Não poderia priorizar suas emoções.

Primeiro afrontaria seus inimigos. Depois, a garota misteriosa a espreitá-la de um canto da sua própria alma.

A Partida da Pequena Milly

A Partida da Pequena Milly

Fada Milly

Essa semana outra jornada está em foco. Não a de Layla, mas sim a de uma gatinha que aterrissou na minha vida em um momento difícil. Estava, então, imersa em uma teia de padrões e condicionamentos adversos, prisioneira de meus próprios medos. Meus sonhos, projetos e aspirações pairavam em um horizonte distante, quase como se pertencessem a outra pessoa.

A pequena Milly encantou meus dias, deu uma nova luz a minha travessia, despertou a magia adormecida em meu viver. Como em um passe de mágica, ela me brindou com as cores da esperança, o mistério da fé e sua filha, a Fada Pituka.

Hoje, após anos de convivência iluminada, minha rainha mergulhou em uma nova jornada, rumo ao Jardim Encantado. Depois de uma dolorosa despedida, ela foi ao encontro da Pituka e dos amigos que a precederam.

Não por acaso ela partiu no dia 7 de setembro. Além de se libertar da agonia da dor, me deixou em meio a um processo de libertação. A pequena Milly, fonte de amor incondicional, converteu minha vida em um oceano de possibilidades.

Achei que compartilharíamos esse novo momento, mas Deus tinha outros propósitos. No cristal dos seus olhos, vi dançar a luz do Sagrado. Soube, então, há dois dias, que ela iniciava sua viagem. Parte dela já se encontrava no Jardim Encantado.

Até um dia, minha pequena. Graças a você, hoje nenhuma tempestade me abala. Apesar das saudades, meu coração está sereno. Sei que, apesar de vivermos agora em diferentes dimensões, seguiremos juntas por toda a eternidade.

A Jornada de Layla

A Jornada de Layla

Capítulo 3

Realidades Paralelas

 Layla lutava para dominar suas emoções. Parte dela queria estar invisível. A outra… a outra desejava mergulhar nos olhos enevoados do guardião. Arrepios estranhos percorriam seu corpo.

Ela engoliu em seco. Melhor descobrir logo que intenções o moviam.

– Vai me denunciar ao Tribunal dos Guardiões?

– Preparada para viver sem o conforto da Cidade? – havia um tom de ironia na voz dele.

Layla tentou reprimir um impulso de fúria.

–  Se desejasse viver sob as asas dos Conselheiros, não estaria aqui.

Ao disparar essas palavras, deu-se conta de seu erro. Os olhos dele escureceram de imediato. Ele voou na sua direção.

Em seguida, ela sentiu o toque firme em seu queixo. Quando percebeu, já fitava o olhar tempestuoso do guardião.

– Cuidado, garota! Pensa que está segura no deserto? Sabe que inimigos a espreitam?

Enquanto Layla tentava absorver essa revelação, ouviu um rugido apavorante. Na mesma hora, o chão estremeceu. Não fossem os braços vigorosos do guardião, ela teria se chocado contra o solo. Ele farejou o ar.

– Estranho – murmurou. – Essas criaturas não costumam se aproximar tanto da fronteira da Cidade.

Ele a fitou; algo parecia intrigá-lo. Então, sem hesitar, enlaçou o corpo dela, atirando-a sobre seus ombros. Sem tempo para reagir, Layla sentiu o ardor do sol em suas faces. Em um piscar de olhos, estavam de volta ao deserto.  

– Isso é absurdo! – protestou.  – Posso correr com minhas próprias pernas.

Porém, era um alívio estar bem distante daquele rugido cavernoso. Seu coração ainda pulsava descompassado, provocando-lhe náuseas. Que seria aquilo? O que, afinal, lhe aguardava no deserto?

Quando deu por si, a tempestade já se dissipara. Parecia jamais ter atingido a superfície. Segundos depois, viu-se depositada sobre uma rocha arenosa.

Enquanto ela tentava organizar suas dúvidas, sem saber por onde começar, o guardião sentou-se, fazendo sinal para que se acomodasse. Layla não saberia dizer onde se encontrava, pois a paisagem era sempre a mesma.

– Aqui a realidade é diferente – disse ele. – Ainda que o Conselho tente se convencer de certas verdades, no deserto elas nada valem.

Ela gelou. Então ele não acreditava nos dogmas?

– Não acha perigoso se opor ao Deus Xântico? – Layla decidiu entrar no jogo. – Mesmo fora da Cidade?

Ele entrecerrou os olhos, ensaiando um sorriso.

– Você é a garota dos Fitzgerald, não? Filha de Louise e Thomas?

Ela sentiu um calafrio. O calor abandonou suas faces.

Como ele poderia saber?”

Parecendo ler seus pensamentos, ele prosseguiu.

– Guardiões sabem o que se passa em toda parte. Mais que o Conselho. – Ele piscou, talvez tentando amenizar a tensão. – Que seria dos Conselheiros se duvidassem de suas próprias crenças? Preferem ignorar algumas realidades.

– Então… – ela hesitou. – Não adiantou tentar me esconder. Sempre souberam de minha presença no deserto.

– Há olhos até sob a terra – disse ele.

Como para pontuar essa informação, Layla acreditou ver a areia ondular.

– Quem são meus inimigos? – Não sabia mais o que pensar. E se ele apenas tentasse enredá-la nas tramas do medo? – Que ganharia ao me ajudar? Nem sei quem você é.

– Sou Morgan Blake. – Ele olhou em volta, como se sentisse algo estranho no ar. – Serei breve. Você precisa partir o mais rápido possível. Descobrirá aos poucos as realidades do deserto.

Layla devorava cada palavra. Embora houvesse guardiões caçando rebeldes, uma parte deles já questionava o mundo xântico. Seu coração ficou mais leve. Em seguida, porém, perdeu o ar ao saber que mutantes não eram apenas mitos. 

– Vai se surpreender ao tentar distinguir entre real e ilusão. Fora da Cidade, nada é impossível. Dimensões se cruzam por aqui. Num instante você está entre humanos e, logo depois, num mundo desconhecido.

– Se conhece tão bem o deserto, por que não me leva até… – Como um raio, ele pousou o dedo sobre seus lábios.

– O deserto tem ouvidos – sussurrou Morgan. – Será difícil encontrar quem procura, pois entre vocês há um mar de inimigos. – As palavras dele lhe provocaram indescritível impacto.

– Acompanherei você até a fronteira da Bruxa da Lua Azul.

“Bruxa? Lua Azul?Estaria sonhando?”

– Não posso ir além. Essa jornada é sua; mas, quando for necessário, você me encontrará – completou Morgan.

– Ela sabe do paradeiro dele? – perguntou Layla. –Tenho tão pouco tempo… – Pensou em Clark novamente. Que seria dele?

– Confie nas forças cósmicas – os lábios dele roçaram seus ouvidos, enquanto borboletas dançavam em seu estômago.

Mas a magia durou pouco. Urros estridentes preencheram o ar, ameaçando dilacerar seus tímpanos. Por instantes, Layla teve a impressão de ouvir o próprio grito, antes do mundo escurecer.