Capítulo 5 – À Procura de Dora

Capítulo 5 – À Procura de Dora

Clark não se lembrava de quase nada após o último encontro com Lenora. Deixara a gruta entorpecido. Uma comichão no coração, algo como uma fúria, se intensificava e devorava sua razão. Ao se aproximar de sua casa, a ira queimava em suas entranhas. Parecia perder o controle sobre os próprios músculos.

De repente, sentiu um toque cálido em suas costas. Foi como um choque percorrendo seu corpo. Estremecendo, Clark voltou-se bruscamente.

– Primo, que está acontecendo? – Uma expressão de terror pairava no olhar de Dora. – Nunca te vi assim.

– Assim como? – vociferou Clark. Era mesmo sua voz?

Ela recuou, ainda fitando-o. O que veria nos olhos dele? Então, Dora começou a buscar algo em sua bolsa. Logo emergiu da valise um objeto espelhado.

– Veja você mesmo – ela murmurou.

Clark arrebatou o artefato das mãos delicadas de sua prima. Quando levou o espelho até o rosto, mal conseguiu reprimir um grito de horror. Seus olhos pareciam transbordar de sangue.

Aturdido, fitou Dora. Então, percebeu que a mão dela sangrava. Neste instante, a fúria de Clark começou a derreter. Ele só desejava fugir das proximidades de sua casa.

Quando ensaiou o primeiro passo, uma vertigem o dominou, cegando-o. A partir daí, lembrava-se apenas do grito de Dora.

– Socorro! Socorro!

infinito

Agora, livre da prisão, Clark tentava adivinhar o por quê de sua libertação. E também o que aconteceu de quando o mundo escureceu até sua misteriosa prisão.

Estava no Campo das Luzes, onde sempre meditava. Nem sabia como chegara até ali. Súbito, os carrascos chegaram, armados. Pareciam preparados para o pior dos confrontos.

Como um fantoche inerte, Clark entregou-se aos seus verdugos. Teria ferido Dora?

Ao chegar no calabouço, porém, o abismo revelou-se ainda mais profundo.

– O quê?!!!!!!!!!!! – um grito gutural cortou sua garganta. Seus pais, mortos?  E eles o acusavam de ser o assassino????????

Jogado na cela infecta, lembrava-se das insinuações de Lenora. Ele sentia seu estômago se contorcer ante a ideia de… Espere! Como seu broche foi parar na cena do crime? Fora mesmo manipulado por uma serpente, a ponto de matar os próprios pais? Talvez Layla pudesse ajudá-lo. Mas, se partisse à sua procura, os Xânticos o seguiriam.

Só lhe restava Dora. Sua única testemunha confiável naquele dia sombrio. Por isso estava ali, agora, ante o portão da casa de sua prima. Estremeceu ao pousar o dedo sobre a campainha.

Desejo mesmo saber a verdade?”

Quando, enfim, criou coragem, o portão se abriu. Ele retrocedeu, mal respirando. Deparou-se com a expressão assustada de sua tia Angélica. Ela também recuara, a mão à boca, talvez reprimindo um grito de pavor.

– Pelo Xântico! Que faz aqui, demônio? Nem o calabouço o detém?

Clark não esperava essa reação.

– Calma, tia. Não tenho poderes demoníacos. – Ela permanecia paralisada. – Procuro por Dora. Ela…

– Deixe-a em paz – berrou ela, simulando com as mãos o símbolo do Xântico. – Não bastou destruir a vida de sua família? Agora quer arruinar minha Dora?

Antes que Clark pudesse se defender, sua tia trancou a porta de madeira, deixando-o sem ação.

E agora? Dora era sua última esperança. Por instantes, Clark desejou fugir. Mas a lembrança de Layla o impedia.

Súbito, um puxão em sua camisa o libertou de seus devaneios. Um garoto, cerca de nove anos, rosto repleto de sardas, olhos castanhos repletos de energia, atraiu sua atenção.

– Pepe! – Uma onda de adrenalina despertou seus nervos. – Escute, sabe onde está sua…

– Venha! – Pepe olhava em volta, agitado, puxando seu braço na direção oposta. – Preciso lhe mostrar minha casa da árvore.

O ânimo de Clark esmaeceu. Mas, de repente, uma luz em sua mente o alertou. Era melhor seguir Pepe. O garoto insistia em arrastá-lo. No rosto avermelhado pelo esforço, pairava a expressão determinada de um adulto.

Em segundos, Clark decidiu. Acompanhou Pepe até uma nogueira robusta, a poucos metros dali, oculta em uma viela sem saída. O menino deu uma última olhada em torno, antes de puxar algo que parecia uma escada de fibras vegetais. Então, ela moveu-se sinuosamente na direção deles.

Quando os degraus tocaram a calçada rústica, Pepe acenou-lhe. Clark hesitou. Porém, o som de uma sirene, cada vez mais próxima, o encorajou. O garoto o seguiu. Assim que, enfim, chegou ao topo, Clark sentiu fisgadas em seu corpo roubarem-lhe o fôlego.

Por outro lado, Pepe parecia ainda mais energizado.

– Aqui estamos seguros. Nem eles conhecem meu esconderijo. – Clark arqueou as sobrancelhas. – Os Xânticos, cara – completou, como se dissesse “é óbvio, não?”

De súbito, Pepe silenciou. Clark temeu falar sobre a prima. Aguardou.

– Sei onde encontrar Dora – disse, enfim, o garoto. –  Está em suas mãos salvar minha irmã, por favor. – Pepe nem respirava; chegou a ficar roxo.

– Calma. Respire – Clark tentou serená-lo. – Devagar. Muito bem. Agora explique. Como só eu posso salvá-la?

– Sonhei. Dora. Meus sonhos sempre se realizam. Não conte para minha mãe. – Continuava a emendar as frases. – Dora corre perigo. Ela não deve confiar no Allan, seu noivo, um traidor. Está a serviço deles. – Ele apontou para fora, como se os inimigos o aguardassem sob a casa da árvore.

– Deixe-me ver. Dora está na companhia do Allan…

De repente, um raio iluminou suas lembranças. Allan Melker, um dos maiores informantes dos Xânticos. A cabeça de Clark latejava. Naquela época, ele também era sério candidato a delator. Por Deus, se Dora confiava nesse sujeito, estava mesmo correndo perigo.

– Como sabe sobre Allan? – perguntou. Ouvira algo?

– Sonhei – repetiu o menino, impaciente. – Não acredita?

– Já nem sei mais em que acredito – pensou em voz alta. – Não acha que sou um demônio? Talvez represente um risco maior para sua irmã.

– Não é verdade – disse Pepe. Clark sentiu o toque do primo em seu ombro. – Você errou. Por isso Dora está encrencada. E Layla também. – Clark ficou sem palavras. – Mas não é um monstro. E pode virar heroi se salvar minha irmã.

– Obrigado – disse Clark. – Diga, onde encontro Dora? – O que ela saberia sobre ele? Contara ao Allan?

– Terá que descobrir – respondeu Pepe, evasivo. – Conhece a senhora Colker, não? Dizem que tem poderes, mas nem eles ousam atentar contra ela.

Ninguém atacaria Emily Colker. Afinal, era esposa de Dereck, antigo Ministro da Religião na era do Caos. Melhor amigo de Amon. Que ironia! Poderosos protegendo uma psíquica!

– E qual a relação dela com Dora? – perguntou Clark.

– É tia do Allan, mas é do bem. A senhora Colker pode encontrar Dora. Se souber que está em perigo, vai protegê-la.

– Clark – cochichou Pepe -, Dora vai te ajudar a esclarecer o que aconteceu naquela tarde. E ela pode achar Layla.

Clark arregalou os olhos.

– Como? – duvidou.

Pepe balançou a cabeça. Então, Clark soube. Trilharia sozinho essa jornada. Encontraria as próprias respostas.

– Você tem que ir – disse Pepe. – Ficarei mais um pouco. Ao descer, não siga pela rua principal. Vá até o fim do beco. Pule o muro que dá para a chácara do Tio Jay.

Pepe deu de ombros.

 – O único perigo é o Melchi. Mas se der esse osso prá ele, não terá problemas.

Ele tirou de um baú um osso aparentemente suculento. Clark sorriu ao apanhar o banquete do doberman.

– Cuide-se. Não conte seus sonhos a ninguém.

– Sou ladino. – Pepe piscou. Diga a Dora que logo irei ao encontro dela.

Clark desceu com atenção redobrada. Não podia denunciar o esconderijo de seu primo. Ao atingir o chão, olhou em volta, mas nada viu. Correu até a chácara.

Prestes a saltar, sentiu a presença de Layla. Cerrou os olhos. Era como estar novamente no Campo das Luzes, numa daquelas mágicas noites de primavera.

Nunca compartilhara as ideias dos pais. Ainda menino, fingia crer na magia, apenas para agradá-los. Acreditava mesmo no Xântico, mais concreto que universos mágicos.

Mas, agora, crendo ouvir Layla clamar por socorro, duvidava de si mesmo. E se outras dimensões realmente existissem? Afinal, por que as teses de seus pais incomodavam tanto os líderes xânticos?

Respirou fundo. Não podia ir à procura de Layla. Mas tentaria consertar alguns erros. E começaria por Dora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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