A Jornada de Layla

A Jornada de Layla

Capítulo 4

O Inimigo Sem Faces

Layla não via mais que sombras. O abismo negro parecia infinito. Ela caía, caía…

Então, uma voz profunda e rouca cortou a escuridão.

– Você destrói aquilo que toca.

A princípio, não compreendeu as palavras. A voz, porém, prosseguiu, não lhe deixando dúvidas.

– Destruiu seus pais quando virou uma aberração.

Ela estremecia, como se não controlasse o próprio corpo. Súbito, um sussurro distante anhinhou-se em seus ouvidos.

– Reaja, seus poderes são abençoados pelo Senhor do Universo.

Layla tentou se apegar àquelas palavras, mas a voz sinistra voltou a sugá-la.

– Enquanto o sangue deles esvaía, só lhe restava a certeza de sua culpa.

Impotente, ela mergulhou mais fundo naquele abismo sem faces.

– Você renegou o Deus Xântico, Senhor dos que sobreviveram ao Caos. Sua família pagou um alto preço por sua rebeldia.

A dor de Layla era quase insuportável. Ela tentava se apoiar em algo, mas o buraco negro a devorava.

Quando sua consciência fugia, o vento pareceu lhe soprar palavras distantes.

– Despreocupe-se, Layla. No tempo certo encontrará harmonia no turbilhão em que mergulhou.

Ao focar nessa voz, uma luz emergiu em sua mente, dando-lhe forças para reagir. Entretanto, assim que impulsionou seu corpo para cima, sentiu como se tentáculos viscosos envolvessem suas pernas, feito garras selvagens  dilacerando cada nervo.

Um grito feroz escapou da garganta de Layla; ela não reconhecia a própria voz.

Suas forças voltaram a fugir; estava quase cedendo ante o inimigo, quando braços vigorosos encaixaram-se sob seus ombros, puxando-a para o alto.

A subida parecia infindável; e aparentemente o adversário não desistiria de sua presa. Ele se enroscava no corpo dela, lembrando um daqueles parasitas repulsivos das aulas de Biologia.

– Ele está em sua mente. – Agora ela reconhecia a voz de Morgan. – Liberte-se dele.

“Como?”

Ela não compreendia.  Parecendo ler seus pensamentos, o guardião prosseguiu.

– Suas mentes estão conectadas. Tente resgatar uma lembrança que lhe inspire alegria.

A dor de Layla transcendia qualquer limite. Lágrimas teimavam em banhar suas faces. Como pensar em algo bom nesse momento?

Mas, de súbito, soube. Não desistiria de sua jornada. Se não por ela, por Clark.

Então, como se o nome dele fosse mágico, ela se viu no Campo das Luzes, pequeno bosque artificial nos limites da cidade. Ali, em noites de primavera, as pessoas se reuniam para louvar o Xântico.

A família de Layla não adorava aquela divindade sombria. Portanto, aproveitava para contemplar as estrelas, enquanto apreciava um inusitado fenômeno meteorológico. Nessa estação, o céu derramava luzes coloridas sobre aquela região. O Conselho pregava que, no auge do Caos, o Deus Xântico elegera bem ali o primeiro líder da linhagem protegida. As luzes seriam uma lembrança desse pacto.

Mas os pais de Layla suspeitavam que o Campo era um dos raros pontos de contato entre humanos e outras dimensões. Ela e Clark ouviam essas histórias como se fossem contos de fadas.

– Layla, e se for verdade? – perguntou Clark, então com 10 anos. – Acha que há duendes e dragões nessas dimensões? – Os olhos dele brilhavam. Ele tinha verdadeira obsessão por essas criaturas.

– Prefiro imaginar que há fadas e bruxas. – Aos 7 anos, ela já sonhava com poderes mágicos. – Pensando bem, pode haver anjos também…. – Hesitou, depois arriscou. – Acha que há fantasmas de luz, como diz mamãe?

– Não são fantasmas, boba. – O riso cristalino de Clark era capaz de dissolver os medos de Layla. – São es-pí-ri-tos.

– Foi o que disse – teimava – Es-pri-tus. – Ele ria ainda mais; ela fingia ficar brava.

Naquela noite, as luzes pareciam mais intensas. Ela acreditou ver, por instantes, a face de um anjo. Por que lhe parecia, agora, tão familiar?

De repente, o olhar daquele anjo a conduziu de volta ao abismo. Mas ela não estava caindo, nem sentia as garras sinistras em torno de suas pernas. Uma brisa fresca amenizava sua dor.

Uma luz, aproximando-se em alta velocidade, feriu seus olhos. Então, ela mergulhou num estranho torpor.

Ao despertar, sobre uma rocha íngreme, porém reconfortante, viu-se diante de olhos que lembravam os do Anjo de sua infância. Estaria devaneando?

– Você é guerreira – disse Morgan. – Poucos sobrevivem ao encontro de um psíquico. – Ela franziu a testa.

–  Refere-se àquele monstro sem faces? – Seu coração acelerou. – Não foi um pesadelo?

– É quase como se fosse. – Ele tinha de responder por enigmas? – Psíquicos são como você, porém a serviço do Conselho. Mercenários, entende?

Espere. Ela dissera algo sobre seus poderes? Tentou lembrar-se; a cabeça doía. Nesse instante, ele interrompeu seus pensamentos.

– Já disse. Os guardiões detêm todo saber. Infelizmente, o Conselho também. – Novamente ela sentiu que ele podia ler sua mente. Ai! Deveria controlar certos pensamentos! Mas como? Seu rosto parecia arder em brasas.

– Esses psíquicos… – ela tentou focar nos inimigos – sou tão perigosa quanto eles? – Arrepiou-se ao rememorar as palavras de seu algoz. Teria mesmo provocado a morte dos pais? Um estranho mal-estar a dominou.

– Cuidado, não entre na sintonia de seus adversários. Eles usam os poderes psíquicos para entrar na sua mente e lá encontrar as armas necessárias para destruí-la. – Ela piscou, confusa. – No seu caso, medo e culpa.

Layla suspirou.

– Nunca percebi que me sentia tão culpada.

– O Conselho treina psíquicos para navegar no inconsciente, sede dessas emoções destrutivas. Eles podem ser bem letais. Você pode jamais voltar desse mergulho no lado obscuro da mente.

Um arrepio percorreu a medula de Layla.

– Também posso virar um monstro como esse? O que me salvou? Ou quem?

Uma expressão misteriosa pairava no rosto dele. Compaixão? Preocupação?

– Só se escolher o lado escuro da jornada. Guie-se pela luz intensa presente em sua alma e não terá o que temer. Acredite mais em si mesma. Lembre-se, cada recurso, cada revelação, pode ser instrumento do mal ou do bem. Depende de você.

Se assim era, Layla não provocara a morte dos pais. Por eles, por Clark, ela se deixaria conduzir pelas luzes.  Algo insistia em emergir na sua consciência; algo que vira ou sentira no Campo. Que seria?

Então, um toque ardente em sua pele a despertou. A misteriosa intuição voltou a se esconder, dando lugar a um turbilhão de emoções. Um simples toque de Morgan e pronto! Lá estava ela, novamente imersa num imprevisível redemoinho.

Súbito, ele se afastou, quase como se um raio o atingisse.

– Melhor partir, antes que enviem novos emissários a sua procura.

O estômago de Layla se retorceu. Tanto ainda a enfrentar. Não poderia priorizar suas emoções.

Primeiro afrontaria seus inimigos. Depois, a garota misteriosa a espreitá-la de um canto da sua própria alma.

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19 comentários sobre “A Jornada de Layla

  1. Olá…
    Confesso que pegar a história já no caminho me deixou confusa e infelizmente não poderei acompanhar os anteriores, mas gostei da forma como escreveu e você sabe expressar bem as palavras… curti esse capítulo, não sei se é mais ficção ou não, mas nunca tinha ouvido flar de um deus Xântico, mas achei interessante ele sobreviver ao caos… acredito que Layla ainda tem muito que aprender e resistir a essa voz que quer levá-la para o caminho da escuridão…. Xero!!!

    http://minhasescriturasdih.blogspot.com.br/

    Curtir

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