A Jornada de Layla

A Jornada de Layla

Capítulo 3

Realidades Paralelas

 Layla lutava para dominar suas emoções. Parte dela queria estar invisível. A outra… a outra desejava mergulhar nos olhos enevoados do guardião. Arrepios estranhos percorriam seu corpo.

Ela engoliu em seco. Melhor descobrir logo que intenções o moviam.

– Vai me denunciar ao Tribunal dos Guardiões?

– Preparada para viver sem o conforto da Cidade? – havia um tom de ironia na voz dele.

Layla tentou reprimir um impulso de fúria.

–  Se desejasse viver sob as asas dos Conselheiros, não estaria aqui.

Ao disparar essas palavras, deu-se conta de seu erro. Os olhos dele escureceram de imediato. Ele voou na sua direção.

Em seguida, ela sentiu o toque firme em seu queixo. Quando percebeu, já fitava o olhar tempestuoso do guardião.

– Cuidado, garota! Pensa que está segura no deserto? Sabe que inimigos a espreitam?

Enquanto Layla tentava absorver essa revelação, ouviu um rugido apavorante. Na mesma hora, o chão estremeceu. Não fossem os braços vigorosos do guardião, ela teria se chocado contra o solo. Ele farejou o ar.

– Estranho – murmurou. – Essas criaturas não costumam se aproximar tanto da fronteira da Cidade.

Ele a fitou; algo parecia intrigá-lo. Então, sem hesitar, enlaçou o corpo dela, atirando-a sobre seus ombros. Sem tempo para reagir, Layla sentiu o ardor do sol em suas faces. Em um piscar de olhos, estavam de volta ao deserto.  

– Isso é absurdo! – protestou.  – Posso correr com minhas próprias pernas.

Porém, era um alívio estar bem distante daquele rugido cavernoso. Seu coração ainda pulsava descompassado, provocando-lhe náuseas. Que seria aquilo? O que, afinal, lhe aguardava no deserto?

Quando deu por si, a tempestade já se dissipara. Parecia jamais ter atingido a superfície. Segundos depois, viu-se depositada sobre uma rocha arenosa.

Enquanto ela tentava organizar suas dúvidas, sem saber por onde começar, o guardião sentou-se, fazendo sinal para que se acomodasse. Layla não saberia dizer onde se encontrava, pois a paisagem era sempre a mesma.

– Aqui a realidade é diferente – disse ele. – Ainda que o Conselho tente se convencer de certas verdades, no deserto elas nada valem.

Ela gelou. Então ele não acreditava nos dogmas?

– Não acha perigoso se opor ao Deus Xântico? – Layla decidiu entrar no jogo. – Mesmo fora da Cidade?

Ele entrecerrou os olhos, ensaiando um sorriso.

– Você é a garota dos Fitzgerald, não? Filha de Louise e Thomas?

Ela sentiu um calafrio. O calor abandonou suas faces.

Como ele poderia saber?”

Parecendo ler seus pensamentos, ele prosseguiu.

– Guardiões sabem o que se passa em toda parte. Mais que o Conselho. – Ele piscou, talvez tentando amenizar a tensão. – Que seria dos Conselheiros se duvidassem de suas próprias crenças? Preferem ignorar algumas realidades.

– Então… – ela hesitou. – Não adiantou tentar me esconder. Sempre souberam de minha presença no deserto.

– Há olhos até sob a terra – disse ele.

Como para pontuar essa informação, Layla acreditou ver a areia ondular.

– Quem são meus inimigos? – Não sabia mais o que pensar. E se ele apenas tentasse enredá-la nas tramas do medo? – Que ganharia ao me ajudar? Nem sei quem você é.

– Sou Morgan Blake. – Ele olhou em volta, como se sentisse algo estranho no ar. – Serei breve. Você precisa partir o mais rápido possível. Descobrirá aos poucos as realidades do deserto.

Layla devorava cada palavra. Embora houvesse guardiões caçando rebeldes, uma parte deles já questionava o mundo xântico. Seu coração ficou mais leve. Em seguida, porém, perdeu o ar ao saber que mutantes não eram apenas mitos. 

– Vai se surpreender ao tentar distinguir entre real e ilusão. Fora da Cidade, nada é impossível. Dimensões se cruzam por aqui. Num instante você está entre humanos e, logo depois, num mundo desconhecido.

– Se conhece tão bem o deserto, por que não me leva até… – Como um raio, ele pousou o dedo sobre seus lábios.

– O deserto tem ouvidos – sussurrou Morgan. – Será difícil encontrar quem procura, pois entre vocês há um mar de inimigos. – As palavras dele lhe provocaram indescritível impacto.

– Acompanherei você até a fronteira da Bruxa da Lua Azul.

“Bruxa? Lua Azul?Estaria sonhando?”

– Não posso ir além. Essa jornada é sua; mas, quando for necessário, você me encontrará – completou Morgan.

– Ela sabe do paradeiro dele? – perguntou Layla. –Tenho tão pouco tempo… – Pensou em Clark novamente. Que seria dele?

– Confie nas forças cósmicas – os lábios dele roçaram seus ouvidos, enquanto borboletas dançavam em seu estômago.

Mas a magia durou pouco. Urros estridentes preencheram o ar, ameaçando dilacerar seus tímpanos. Por instantes, Layla teve a impressão de ouvir o próprio grito, antes do mundo escurecer.

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14 comentários sobre “A Jornada de Layla

  1. Já li os comentários e vi que é um livro que você está escrevendo, achei muito legal, parabéns, adoro essa coisa de dimensões que se cruzam. Só acho que seria mais legal ainda se você tivesse facilitado pra gente colocando os links dos capítulos anteriores…

    beijo!

    Ju – Entre Palcos e Livros

    Curtido por 1 pessoa

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