A Jornada de Layla

A Jornada de Layla

Capítulo 2

O Broche Dourado

Clark achou que ia sufocar se permanecesse mais um segundo sob a terra. Até durante a Era do Caos tivera problemas para suportar os silos. Naquela época, porém, vivia em amplos espaços e não poderia reclamar de solidão.

Agora, recluso naquele espaço minúsculo, na companhia apenas de um círculo amarelo, transposto por uma espada cravejada de pérolas, estava prestes a enlouquecer.

Ao fitar o emblema do Deus Xântico, ao qual seus pais tanto se opunham, não pode deixar de pensar na ironia do destino. Fechando os olhos, deixou que as faces delicadas de Lenora povoassem sua mente.

Lembrou-se do último encontro. Há quanto tempo? Ali perdia a noção do tempo. Talvez cinco, seis dias?

Ela caminhava de um lado para outro. Parecia aflita. Os olhos verdes, inquietos, examinavam a gruta, única testemunha do romance que poderia representar o fim da vida de Clark.

Sim, o temido Amon, líder do Conselho Xântico, não condenaria a própria filha à morte. Nem por trair o noivo imposto por sua família desde a infância. Transgressão grave demais entre as famílias pilares.

– Não há saída – dizia Lenora. – Meu pai confia em você, mas jamais o aceitará como genro.

Clark rangeu os dentes. Ao pensar em como conquistava a confiança de Amon, seu estômago se contorcia. Se seu pai soubesse…

– Tenho feito o impossível para ser indispensável no Conselho, mas nunca pertencerei às famílias pilares. – Subitamente, Clark acreditou ver um brilho estranho nos olhos dela. Porém, eles logo resgataram a suavidade que o conquistara.

– Você me ama mesmo? – perguntou Lenora. Ele sentiu seu sangue ferver.

Como assim? Ela duvidava de seus sentimentos?

– Algo talvez possa fazer meu pai mudar de ideia…

– Não, Lenora – ele sentiu um calor incômodo apoderar-se de seu rosto.

Viver sem ela era impossível, mas não podia ir além. Já era repugnante trair o próprio pai. Lenora teria que compreender.

Todavia, ao fitá-la, por um instante não estava mais diante da garota por quem se apaixonara, e sim de uma estranha exibindo uma expressão gélida nas faces.

Ele piscou, voltando a fitá-la. Ela sorriu, como se resignada. Seriam apenas alucinações? Provocadas pela culpa, pelo medo de perdê-la? Aproximando-se, observou-a melhor.

– Eu o admiro – disse Lenora. – A família sempre em primeiro lugar. Meu pai se orgulharia de você. – Por que essas palavras não aliviavam o coração de Clark?

– Obrigada, Lenora. – Suas palavras tentavam se rebelar. – Não suportaria se me exigisse essa prova de amor.

Súbito, ela abaixou a cabeça, talvez tentando ocultar lágrimas furtivas.

– Jamais faria algo assim.

Em um gesto impulsivo, ele a abraçou. Por mais que temesse as consequências, não resistia aos encantos de Lenora. Naquele instante, sentiu na pele algo como uma picada, seguida de estranho formigamento.

Mas o perfume inebriante dela o distraiu de qualquer preocupação. Sem pensar, aproximou os lábios do pescoço de sua garota. Nesse ínterim, ela se afastou, trêmula.

– Não posso arriscar sua vida, nem o destino das nossas almas. – Ele respirou fundo. – Morreria se o flagrassem em minha companhia. Afinal, sou filha de Amom.

– Nada temo se…

– Temo – interrompeu Lenora –, que ficaremos distantes por muito tempo. – Ele tentou silenciá-la, em vão. – Está cada vez mais difícil driblar a segurança. – Ela pausou por instantes. Depois, estendeu a mão,  confiando a Clark seu colar de pérolas. – Para que se lembre de mim.

Angustiado, aceitou a oferta de Lenora, depositando-a no bolso de seu uniforme. Sem hesitar, arrebatou dali o broche dourado, símbolo da Ciência a Serviço da Fé, e o entregou a Lenora.

infinito

O mesmo broche o incriminara. Ali estava ele, sufocando, perdendo a razão. Olhou para suas mãos. Podia vê-las manchadas de sangue. Que fizera? Onde estava Lenora agora? Como aquela joia…

Repentinamente, passos no corredor o arrebataram de seus devaneios. De imediato, o sangue em suas veias entrou em frenesi. Seria ela?

Uma sombra alongada se aproximava, lentamente. Ele já não respirava. Quando, enfim, um facho de luz iluminou a cela, quase roubando sua visão, sentiu suas forças esmorecerem. Caleb, o temido cão de guarda de Amon.

– Como vai o antigo protegido de Amon? – O demônio gargalhou, exibindo dentes infectos e ávidos por sangue.

Clark manteve os lábios congelados. O mutante, exibindo um olhar maníaco, estendeu o braço disforme e o agarrou pelo colarinho.

– Só fala com a elite, é? – De súbito, talvez atendendo a um comando invisível, o demônio o atirou para longe, parecendo focar em algo mais importante. Pelo visto, tentava se lembrar o porquê de sua presença ali.

Enquanto isso, Clark ofegava, aguardando o desfecho daquele confronto.

– Que faz sua irmã no deserto? – vociferou, enfim. Clark tentou responder, mas não encontrava palavras. O choque lhe roubara a voz. – Responda! – urrou o mutante.

– Co… como assim? – balbuciou. – O mutante o fitou. Clark pode ver a confusão no olhar dele.

– Ela fugiu para o deserto sem V-O-C-Ê saber? – O mutante voltou a gargalhar, histérico.

“Layla no deserto? Não no deserto, Deus. Não lá.”

Clark mergulhou em seu mais terrível pesadelo.

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